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De Viana do Castelo para o outro lado do mundo. Diogo Brito é um dos jogadores portugueses que tem vindo a traçar a sua trajetória longe dos grandes palcos europeus, atualmente jogando no Persijap Jepara, na Liga 1 da Indonésia. Formado no Vianense, o defesa-central recorda os primeiros passos no futebol ao lado de jogadores que se destacariam no cenário do futebol português, como Francisco Trincão e Pedro Neto, que também passaram por Viana do Castelo e integram o que muitos chamam de Ouro de Viana. Como titular indiscutível do seu clube, Brito já disputou 24 jogos em 25 possíveis nesta temporada, assinalando um golo e cinco assistências, sendo o atleta mais utilizado do plantel. Nesta entrevista ao Bola na Rede, o defesa-central português fala sobre a adaptação a uma realidade totalmente nova e o futebol no Sudeste Asiático.
Bola na Rede: Diogo, olá. Como surgiu a oportunidade de ir para a Indonésia?
Diogo Brito: A oportunidade ocorreu através do meu agente. A princípio, estava aberto a novas propostas, pois jogava na Segunda Liga em Portugal e almejava mais, mas tinha a mentalidade um pouco fechada, querendo concentrar-me na Europa. Quando meu agente mencionou a Indonésia, fiquei incerto. Na primeira etapa, até recusei. Contudo, com o tempo, comecei a avaliar todos os fatores e decidi arriscar. Estou a viver uma nova aventura e, se não gostar, posso sair em janeiro… é parte da vida.
Bola na Rede: Qual foi a tua primeira impressão ao chegar ao país?
Diogo Brito: É um país bastante diferente. Realmente, compreende uma cultura completamente oposta à que estamos habituados, com horários e clima distintos. É muito distante, mas a adaptação depende muito de como encaramos a experiência. Acredito que devemos ter um espírito aventureiro e uma mente aberta para integrar-nos numa nova cultura e adaptar-nos rapidamente, pois no futebol é essencial fazer essa transição ágil. Apesar das dificuldades, tem sido uma experiência muito agradável.
Bola na Rede: Mencionaste a adaptação à cultura. Como tem sido esse processo quotidiano, especialmente em relação à alimentação?
Diogo Brito: Eu cozinho bastante em casa. Felizmente, tenho uma relação próxima com alguns colegas de equipa, especialmente um argentino (Alexis Gómez) e sua esposa, além de França e sua família, que me têm ajudado, já que estou sozinho. Não tenho o hábito de comer fora, e quando vou, busco restaurantes que sirvam comida mais ocidental, para matar a saudade de casa. Aqui, a alimentação é muito à base de arroz frito, que não é exatamente do meu agrado, mas é necessário adaptar-se.
«Diria que o nível está ao nível da nossa Segunda Liga. É um futebol mais partido, mais de transição, com menos rigor tático»
Bola na Rede: Como descreves a realidade do futebol na Indonésia?
Diogo Brito: É um pouco diferente. Se eu tivesse que comparar, diria que está ao nível da nossa Segunda Liga, para ser sincero. O futebol apresenta várias diferenças, desde o clima aos campos, além da forma como o jogo é encarado. É um jogo mais de transição, mais quebrado, sem a mesma organização tática. Aqui corre-se muito, em grande parte por causa dessas transições. O clima também influencia bastante: a temperatura é em torno de 30 graus durante todo o ano e a umidade frequentemente está acima dos 80%. Adaptar-se à respiração foi um dos principais desafios que enfrentei. Essas são as principais diferenças que precisamos ajustar, mas comparado ao futebol europeu, a organização é inferior; é um futebol mais fragmentado e que apresenta mais transições.
Bola na Rede: Qual é a importância do futebol na Indonésia e como ele é vivido pelos adeptos?
Diogo Brito: Aqui, o futebol é quase uma religião. Antes de vir, procurei entendê-lo, já que conversei com alguns jogadores portugueses que estavam aqui e muitos jogam na primeira liga. Muitas vezes, pensamos que o futebol é apenas um fenômeno europeu, mas a realidade está mudando. Fala-se cada vez mais da América do Sul, e atrásra também começa a emergir um movimento para a Ásia. A Arábia Saudita deu um grande impulso, principalmente por questões financeiras, mas isso está acontecendo em outros lugares, com muitos jogadores europeus se mudando para países como Indonésia, Tailândia ou Malásia. E isso não é à toa. Cada vez mais jogadores vêm e poucos retornam, o que indica o interesse em continuar e mostra que o futebol aqui está em evolução. Não está ainda ao nível de profissionalismo da Europa, mas está a caminho.
«Aqui, na Indonésia, o futebol é quase uma religião. Cada vez mais jogadores vêm e poucos regressam.»
Bola na Rede: Manténs contato com outros jogadores portugueses que estão na Indonésia?
Diogo Brito: Tive contato com alguns jogadores. Por exemplo, o Zé Valente, e também conversei com o Silvério, que já não está aqui, mas com quem falei antes de vir. Todos eles influenciaram minha decisão, pois falaram muito bem da experiência e afirmaram que eu iria gostar, que não era como muitas pessoas pensam. Por exemplo, o Igor, que joga no Persita, também foi um dos que me forneceu feedback positivo. Em essência, todos contribuíram para eu optar por vir.
Bola na Rede: Continuas a ter a ambição de jogar na Primeira Liga? Quais são os teus objetivos futuros?
Diogo Brito: Sim, definitivamente. O futebol é muito incerto, nunca sabemos o que nos reserva o amanhã, mas meu sonho continua sendo jogar na Primeira Liga em Portugal; é um grande objetivo que almejo. Isso também se relaciona com a minha família. Tenho a sorte de ter um pai que jogou nesses estádios e um irmão, Rogério Brito, que também jogou lá. Isso me motiva ainda mais. Como meu pai costuma dizer, ‘o sonho comanda a vida’, e eu realmente acredito nisso. Sou um jogador que teve que fazer o percurso passo a passo, sempre subindo degraus. Houve momentos em que precisei dar um passo atrás para depois avançar dois, e isso aconteceu várias vezes na minha carreira. Sinto que jogar na Primeira Liga ainda é um objetivo a ser cumprido, algo que continuarei a perseguir com todas as minhas forças. Ao mesmo tempo, aceitei essa aventura fora e tem me surpreendido positivamente. Não sei como será meu futuro: se continuarei aqui, se mudarei para outro país ou se retornarei a Portugal. No futebol, sem contratos, tudo é um pouco incerto. Mas esse objetivo persiste: jogar na Primeira Liga em Portugal.
«Continuo a sonhar em jogar na Primeira Liga em Portugal; é um dos grandes objetivos que tenho.»
Bola na Rede: Estás a fazer uma época muito consistente, sendo o jogador mais utilizado do plantel. Sentes que atravessas o melhor momento da tua carreira até atrásra?
Diogo Brito: Se considerarmos o nível, estou a jogar numa Primeira Liga, na Super Liga da Indonésia, e nesse aspecto diria que sim. Agora, pessoalmente, já tive épocas de alto nível. Por exemplo, quando jogava no Vianense, ao subirmos à Liga 3, fiz uma grande temporada. No Penafiel, também estive num bom nível. Mas, em termos de jogos e consistência, provavelmente atrásra estou passando a melhor fase da minha carreira até o momento.
Bola na Rede: Mencionaste o Vianense, onde jogaste com Francisco Trincão e Pedro Neto. Como percebes a evolução deles? Já na altura sabias que iam chegar a esse nível?
Diogo Brito: Sim, sim (risos). Tive a sorte e a oportunidade de jogar ao lado deles; não posso dizer que cresci com eles, pois eles voaram cedo, mas principalmente com o Pedro, desenvolvi uma afinidade. Com o Trincão também, participamos de aniversários uns dos outros e vivemos grandes momentos juntos. Desde cedo, já percebíamos que eles iriam atingir patamares mais altos. Eram diferenciados. Por exemplo, lembro-me que, quando tínhamos 10 ou 12 anos, o Trincão havia estado um ano no FC Porto e depois voltou ao Vianense. No ano seguinte, todos fomos fazer testes no Braga, eu, o Trincão e o João Cunha, e estivemos lá duas semanas. Se não me engano, no final do primeiro treino, já estavam a exigir que ele assinasse contrato. Isso mostra bem a qualidade que ele tinha. O Trincão era mais refinado, mais de classe. O Pedro Neto, com apenas 12 anos, jogava de forma igualmente competente com os dois pés, tinha velocidade, técnica de qualidade e muita irreverência. Eles eram dois jogadores extraordinários. Naquela época, tínhamos uma equipe acima da média, mas aqueles dois estavam em um nível estratosférico.
«O Trincão era um jogador mais refinado, mais de classe. O Pedro Neto era um jogador que, aos 12 anos, já jogava com o pé direito como com o esquerdo.»
Bola na Rede: Tens alguma história engraçada para compartilhar desde que chegaste à Indonésia?
Diogo Brito: Histórias não me faltam. Desde o clima, até a longa viagem que fiz até aqui, que levaram cerca de 20 horas desde Portugal, porque, literalmente, estou no outro lado do mundo. Quando cheguei, lembro-me de sair do aeroporto e sentir um calor e uma umidade tão intensos que pensei: ‘como vou conseguir jogar futebol aqui?’. Estamos acostumados a um clima mais fresco. Posso dizer que, nos primeiros três ou quatro dias de treino, quase desmaiei diariamente. Era um calor e uma umidade tão extremos que só de andar na rua já suava em demasia. Hoje em dia, já me adaptei. Se hoje faz 25 graus, já considero fresco. Mas, sem dúvida, tenho muitas histórias. Por exemplo, as viagens… aqui, as deslocações são uma verdadeira aventura. As pessoas não têm ideia, mas a Indonésia é praticamente do mesmo tamanho que a Europa.
Bola na Rede: Quanto tempo demoras a deslocar-te para os treinos?
Diogo Brito: Treinamos na nossa cidade, que fica a cerca de 40 minutos de onde resido. Mas é uma realidade que temos de nos adaptar, desde as estradas até ao tempo de viagem. Estou numa área mais rural, não tão desenvolvida como Bali, que é mais avançada. A minha cidade é mais piscatória e ligada à produção de madeira. Soube recentemente que Portugal é um dos principais exportadores de madeira para cá, da Indonésia. É uma região que vive muito disso, e as pessoas aqui são mais humildes.
Bola na Rede: Quais são as tuas principais referências ou ídolos no futebol?
Diogo Brito: Meu pai e José Fonte. Admiro a sua carreira, a resiliência e a forma como conseguiu chegar ao mais alto nível. É impressionante ver que, aos 27 anos, ele estava na terceira divisão inglesa e, aos 30, se tornou campeão europeu. Isso exige uma resiliência e capacidade de superação que poucos possuem. Ao observar o percurso de José Fonte, acabei por tê-lo como referência e ídolo.
