No dia de uma autocampanha notável, o líder socialista José Luís Carneiro acusou o governo de ‘sufocar a democracia’.
Em uma entrevista à Lusa, onde demonstrou total confiança de que será o próximo primeiro-ministro – sugerindo que não vê ninguém em seu partido desafiando sua liderança –, o Sr. Carneiro afirmou que o executivo de Luís Montenegro cria ‘ferramentas de distração pública’, ignorando jornalistas (recusando-se a responder perguntas) e alterando estruturas de gestão em organizações de mídia (uma referência ao que ocorreu na agência de notícias estatal).
Em suma, é exatamente o que um ex-líder do PSD acusou os socialistas do PS de fazer: “sufocamento democrático”.
Ao ‘criar ferramentas para distrair a opinião pública’, Carneiro referia-se a questões focadas em “assuntos de estrangeiros”, como a lei que proíbe burcas e as mudanças na Lei da Nacionalidade. Esses são tópicos que não afetam a vida cotidiana dos nacionais, mas “ocupam o espaço da mídia” (e distraem de problemas muito mais urgentes da atualidade, como falhas na saúde, educação, habitação, etc.).
O líder socialista também enfatizou a nova prática de realizar conferências de imprensa que não permitem perguntas dos jornalistas – e a contratação da NewsWhip, uma ferramenta que, segundo ele, tem sido destacada no Reino Unido por ‘monitorar partidos de oposição e jornalistas’.
O governo negou essas acusações, descrevendo seu gasto com a NewsWhip como “recorte moderno”. Mas Carneiro desconsiderou essa explicação, retornando às mudanças na agência Lusa e perguntando: “Qual é a intenção? É encorajar a imparcialidade, independência e escrutínio? Ou é determinar quem gerencia as instituições, influenciar a agenda da mídia?”
No início deste mês, o PS apresentou um projeto de lei para mudar os estatutos da Lusa, inspirado no modelo da emissora estatal, RTP.
A proposta inclui um Conselho de Opinião e um Conselho Geral Independente (CGI, um órgão responsável por escolher a diretoria da agência), que escolheria a diretoria da agência.
O projeto de lei também muda o escrutínio parlamentar – exigindo audiências anuais para o CGI e o conselho, mas excluindo audiências regulares para a diretoria de notícias.
No entanto, novos artigos de associação para a Lusa já estabeleceram que a diretoria da agência deve enviar ao parlamento um plano de atividade e orçamento anuais, plano de investimento, relatório de serviço público e relatórios de contas e atividades (antes de serem aprovados).
Os artigos também afirmam que, ‘sempre que as regras ou decisões parlamentares exigirem’, a diretoria da Lusa e o diretor de informação devem comparecer perante a comissão parlamentar para fornecer qualquer informação e/ou esclarecimento que seja solicitado.
Os trabalhadores da Lusa protestaram contra a reestruturação da empresa, o novo modelo de governança e o que temiam ser uma possível mudança para as instalações da RTP.
O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, desde então, descartou a noção de uma mudança para as instalações da RTP, e afirma que os novos artigos de associação realmente removem a influência do governo sobre a Lusa, em vez de aumentá-la.
Ficou claro em sua entrevista que José Luís Carneiro ‘mudou de marcha’ em sua abordagem à coalizão PSD/CDS. O líder socialista disse à Lusa que está cansado de escrever cartas ao PM (cartas que em grande parte não receberam respostas) – e deixou em aberto a possibilidade de continuar a ‘fazer a coisa certa’ como partido de oposição.
“O primeiro-ministro não pode contar constantemente com o forte senso de responsabilidade do PS para aprovação de seus orçamentos quando chegar a hora,” advertiu Carneiro. “Portanto, cabe a ele trabalhar para construir credibilidade e confiança. O que não tem acontecido, deve-se dizer…”
Esse foi um líder socialista decididamente ‘mais incisivo’ do que o país se acostumou.
Fonte: LUSA
