Há um certo silêncio em torno de uma mudança significativa que ocorrerá a partir de 1 de janeiro de 2026: a implementação de tarifas sobre o carbono na União Europeia. O Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM) visa alinhar as exigências de descarbonização na UE com as diferenças nos padrões dos nossos parceiros comerciais.
Sem qualquer tipo de ajuste, os produtores da comunidade enfrentarão custos mais altos, tornando difícil concorrer com as importações, o que pode resultar em severas reduções na produção, falências empresariais e aumento do desemprego. Além disso, isso nos levaria a depender de produtos de outros países, cuja produção geralmente envolve o uso de energia mais poluente. Em termos ambientais, isso significaria um aumento nas emissões de dióxido de carbono, exatamente o contrário do que se pretende alcançar.
Seria um contrassenso: a introdução de tarifas sobre o carbono na UE poderia resultar, ainda que indiretamente, em um aumento das emissões globais, contradizendo assim seu objetivo original.
Vários países já têm implementado medidas semelhantes às da UE, com preços sobre as emissões de dióxido de carbono e negociação de direitos de emissão, incluindo China e Índia, embora em alguns casos de forma limitada.
Há quem argumente que essas novas tarifas distorcem o comércio e funcionam como um protecionismo disfarçado da UE. Na verdade, é crucial que os detalhes (ainda não completamente definidos) sejam estabelecidos de maneira cuidadosa e transparente, para evitar dar argumentos a nossos parceiros comerciais que possam contestá-los.
É inegável que o caso mais desafiador é o dos EUA, não apenas pela dificuldade de se estabelecer um diálogo racional com nosso aliado mais importante, mas também pela complexidade das negociações, que são extremamente relevantes para a Europa.
Nos últimos meses, tivemos reuniões diplomáticas complicadas sobre as tarifas, e é possível que a administração americana alegue que estamos introduzindo novos impostos que ameaçam o acordo recente, voltando à estaca zero. Mesmo que o resultado final, inclusive eventuais recuos da UE, não traga tarifas significativamente diferentes das atuais, o ressurgimento da incerteza durante as negociações pode paralisar muitas decisões de investimento e contratação, resfriando uma economia europeia que ainda está se recuperando.
Além disso, como já vimos no passado recente, é fácil que as negociações comerciais impactem outras áreas, desde segurança e NATO até as relações com grandes empresas de tecnologia do outro lado do Atlântico.
Esses potenciais problemas ajudam a explicar a falta de atenção internacional a esse tema, mas, dentro da UE e no âmbito nacional, é crucial que as empresas saibam quais tarifas incidirão sobre quais produtos de quais países, para que possam começar a se preparar para as mudanças que se aproximam. Ademais, a mídia portuguesa também deveria dedicar atenção a esse assunto, que interessa a um grande número de leitores.
