“A Europa não se construirá de uma só vez, nem de acordo com um plano único. Construir-se-á através de realizações concretas que criarão, antes de mais, uma solidariedade de facto.”
As palavras são de um dos fundadores do projeto europeu, Robert Schuman, e refletem bem a consciência do engenho necessário para estabelecer solidariedades num continente marcado por ideologias e nacionalismos conflitantes. Como afirmou Denis de Rougemont, a Europa não é apenas a soma de Estados, mas sim uma ideia; ou, mais precisamente, uma vontade de viver em conjunto.
E, embora tenha coincidido com um período em que se acreditava que a história de Fukuyama havia chegado ao fim, após os anos de ouro da afirmação da democracia liberal, com seu Estado de direito, separação de poderes, expansão dos direitos fundamentais e a intenção de fazer do Direito Internacional a pomba da paz, ainda é o palco onde se debatem as grandes narrativas do mundo.
No entanto, a era do ressentimento que nos habita mostra que a ideia de Europa é um frágil gelo sob o qual correm cavalos à desfilada, com o iliberalismo de direita nativista ganhando força e ameaçando desmantelar a promessa kantiana de paz baseada no reconhecimento do imperativo moral do consenso.
Um desses cavalos que avança sobre o gelo é Viktor Orbán, o epicentro europeu do iliberalismo de direita do século XXI, um tubo de ensaio do nacionalismo fundamentado nas premissas elementares da ordem fascista: o direito de sangue e linhagem na pertença ao Estado, a defesa de uma ordem moral única e coletiva e a submissão do aparelho político-jurídico à vontade da maioria, expressa pelo grande líder.
É, portanto, irônico que Orbán afirme que a União Europeia está em processo de desintegração. Essa, segundo ele, é a razão pela qual não deseja aderir à moeda única. Orbán e o Fidesz valorizam o controle sobre o forint (HUF) como instrumento de política econômica e eleitoral, permitindo desvalorizações e políticas populistas, em um quadro de nacionalismo econômico e oposição à União Europeia. Essas estratégias camuflam a inflação, o déficit orçamentário e a dívida pública, fatores que, na verdade, impactam os bloqueios na adesão à moeda única, conforme os termos do Tratado de Maastricht.
Contudo, a maior ironia não é econômica, mas política. Viktor Orbán tem sido um dos principais promotores dessa desintegração, alimentando a desconfiança em relação às instituições europeias e aos valores liberais que o projeto europeu representa, como a independência do poder judiciário, a sacralidade da Constituição, a garantia de pluralidade política e de eleições livres, a liberdade de imprensa e a proteção dos direitos de minorias sexuais e mulheres.
O projeto europeu não se desintegra de fora; desintegra-se internamente, como uma maçã que parece bonita, mas que vai se apodrecendo lentamente até restar apenas a casca.
