Golfistas perdem até 21 mil euros ao jogar contra adversários políticos

Golfistas perdem até 21 mil euros ao jogar contra adversários políticos


Um novo estudo indica que jogar ao lado de colegas com visões políticas divergentes pode ter um custo elevado — em termos de concentração, resultados e até prêmios monetários.

Imagine um dos cenários mais competitivos do desporto profissional: um torneio do PGA Tour, o circuito de golfe mais prestigiado dos Estados Unidos, onde milhões de euros estão em jogo, silêncio absoluto antes da tacada e, ao lado da estrela do evento, um jogador com convicções políticas opostas. Irrelevante? Não é!

À primeira vista, o golfe pode parecer um ambiente improvável para investigar conflitos ideológicos. Durante as partidas, os jogadores pouco se comunicam. O silêncio é a norma. As emoções ficam contidas, e qualquer distração pode ser bastante dispendiosa — de fato. No entanto, foi precisamente nesse contexto que investigadores da Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley e da Yale School of Management identificaram um efeito claro e mensurável, conforme descrito no estudo Political Dissimilarity and Individual Performance, publicado na revista Management Science: golfistas têm um desempenho inferior quando jogam em grupos com colegas de orientações políticas opostas. E isso resulta em perdas significativas, que variam entre 12 mil e 21 mil euros.

Ademais, não estamos lidando com percepções subjetivas ou “sensações no ar”. O estudo analisou mais de 25 mil rodadas de torneios do PGA Tour ao longo de 25 anos (1997–2022) em mais de 700 torneios e envolveu 360 jogadores profissionais — 82 democratas e 278 republicanos, cujas afiliações políticas foram determinadas por registros eleitorais, doações de campanha, redes sociais e declarações públicas.

Esse ambiente competitivo oferece um contexto quase ideal para estudar esse fenômeno. Nos dois primeiros dias de cada torneio, os jogadores são designados aleatoriamente a grupos de dois ou três por meio de um sistema informático. Eles não escolhem os parceiros, nem sabem com quem irão jogar — isso permite que os investigadores isolam o efeito causal da composição do grupo. Além disso, o golfe é um esporte singular: é jogado em grupo, mas o desempenho é totalmente individual. Não há cooperação estratégica e nem decisões conjuntas, apenas a presença constante dos outros.

Os investigadores chegaram a uma conclusão clara e surpreendente: os golfistas se saem melhor quando estão em grupos politicamente homogêneos. Quando jogam em grupos mistos, têm, em média, 0,2 tacadas a mais por rodada. À primeira vista, isso pode parecer irrelevante, mas no universo do golfe profissional, essa diferença é significativa. Essa variação equivale, em média, a uma redução de cerca de 2,5 posições no ranking e a uma probabilidade 5,3% menor de passar o corte do torneio — o limite que determina quem recebe prêmios e quem sai de mãos vazias. O valor monetário em questão varia entre 12 mil e 21 mil euros em prêmios (13 mil a 23 mil dólares) em cada um dos 47 torneios do PGA, onde os valores dos prêmios vão de 8,5 milhões a 17 milhões de euros (10 milhões a 20 milhões de dólares). Em um circuito onde tudo se decide por detalhes, essa é uma desvantagem muito real.

Curiosamente, os investigadores descobriram que o efeito negativo é mais pronunciado nos momentos em que os jogadores estão fisicamente mais próximos: no “drive” inicial e no “putting” final. Durante as jogadas intermediárias, quando cada um caminha por seu lado do campo, o efeito desaparece. Ninguém discute impostos ou imigração à beira do green. Mas, como explica Tim Sels, professor assistente da Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley e coautor do estudo, “a mera consciência da presença de alguém com crenças políticas diferentes gera tensão psicológica suficiente para afetar o desempenho”.

O estudo revela ainda que esse efeito quase triplica durante períodos de alta tensão política nacional. Utilizando o Partisan Conflict Index — que mede o nível de conflito político nos EUA — os investigadores perceberam que, em momentos mais tranquilos, a diferença de desempenho praticamente desaparece. Em contrapartida, quando o país está agitado (como em eleições, crises, ou polarização extrema), essa discrepância aumenta drasticamente. Em números: a diferença sobe de 0,02 tacadas em períodos calmos para 0,55 tacadas em momentos de alta polarização. No golfe profissional, esse resultado pode significar a diferença entre um lugar no pódio e o voo de volta para casa.

Muito além do golfe

Embora o foco do estudo seja o golfe profissional, suas implicações vão muito além do esporte. Em escritórios em open space, fábricas, hospitais ou salas de aula, as pessoas frequentemente trabalham lado a lado sem colaborar diretamente. A pesquisa sugere que diferenças ideológicas podem afetar o desempenho individual até mesmo nesses contextos, especialmente em ambientes de alta pressão.

A mensagem não é que a diversidade política seja “ruim” por si só. Pelo contrário: em outros contextos, como na tomada de decisões em equipe, isso pode ser até benéfico. Contudo, quando o desempenho é individual e requer máxima concentração, o conforto psicológico e a sensação de pertencimento são fatores importantes.

Em um mundo cada vez mais polarizado, este estudo nos lembra que a política não fica à porta do local de trabalho… nem na entrada do campo de golfe. A política, mesmo quando não é discutida, pode permear os silêncios, olhares e nervos. No golfe, isso resulta em tacadas a mais. No trabalho, pode acarretar erros, cansaço e perda de produtividade.

Talvez seja hora de reconhecer que, assim como no fairway, às vezes a melhor jogada seja dar um pouco mais de espaço ao colega ao lado — independentemente de como ele vota. Afinal, ninguém gosta de errar um putt fácil por causa de política. Nem no golfe. Nem no escritório.

A pesquisa foi conduzida por Tim Sels, da Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley, em colaboração com Balázs Kovács, da Yale School of Management, que escolheu o PGA Tour precisamente por unir competição extrema, grupos aleatórios e desempenho individual, oferecendo um laboratório quase perfeito para estudar o impacto da política no rendimento.

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