Dois Mundos com Bússolas Trocadas: Uma Nova Perspectiva

Dois Mundos com Bússolas Trocadas: Uma Nova Perspectiva


O mundo da Ásia

Lee Jae-Myung, que assumiu como chefe de Estado da Coreia do Sul em junho de 2025, iniciou uma visita oficial de quatro dias à China em 4 de janeiro de 2026, a primeira desde 2019.

Lee e Xi Jinping já se tinham encontrado dois meses antes, em novembro, durante a Cimeira de líderes da APEC na Coreia do Sul, onde demonstraram publicamente uma boa disposição um para com o outro.

A experiência mostra que navegar nas complexidades dessas iniciativas é desafiador. Existem aspectos visíveis e formais, que quase nunca são os mais significativos e frequentemente são muito diferentes entre os países, como a influência, a empatia, o prestígio e a abertura para futuras cooperações. Além disso, nem sempre os acordos assinados refletem claramente as negociações que ocorreram.

Atualmente, existem relações tensas na região, como é o caso entre a China e o Japão. A primeira-ministra japonesa, Sanae Taikachi, adotou uma abordagem provocativa, sugerindo que as forças armadas do Japão poderiam se envolver com as da China caso esta tomasse medidas contra Taiwan. A gravidade das suas declarações foi tal que até Donald Trump, apesar de sua proximidade ideológica, argumentou a favor de uma maior contenção de suas palavras. Essa situação é um lembrete de que, por mais próximos que fossem, a política é implacável.

Antes de sua visita a Pequim, Lee Jae-Myung concedeu uma entrevista à CCTV, a primeira de sua presidência, que foi transmitida na sexta-feira, 2 de janeiro.

Na entrevista, abordou temas significativos que contrastavam com a posição da primeira-ministra japonesa. Ele expressou a esperança de que o povo sul-coreano compreendesse sua abordagem nas relações com Pequim e reiterou seu compromisso com a “política de uma só China”, um princípio que reflete sua campanha eleitoral. Ele também afirmou que um possível conflito entre China e Taiwan não é uma questão que diz respeito à Coreia do Sul, e que, apesar de os EUA serem seu principal aliado militar, isso não afetaria as relações entre Seul e Pequim.

O que significa a “política de uma só China”?

Este princípio, estabelecido em 1992, refere-se à existência de uma única China, o que implica que Taiwan é parte da China, ainda que com características próprias de organização política.

A visita oficial de quatro dias teve como intuito normalizar as relações entre os dois países, que se deterioraram durante o mandato do presidente anterior, e estruturar uma parceria estratégica de cooperação e paz.

No encontro que ocorreu em 5 de janeiro, foram estabelecidas as bases para a cooperação, sabendo-se que a China pediu apoio à Coreia do Sul para a reconstituição histórica da questão de Taiwan (um tema já abordado entre os ministros das Relações Exteriores) e a Coreia do Sul pediu a intervenção da China junto à Coreia do Norte sobre questões de mísseis.

Os avanços na cimeira foram satisfatórios para ambos os lados, especialmente nas áreas econômica e tecnológica, onde a cooperação se mostrou fundamental para o desenvolvimento sustentável de ambos os países. Foram assinados 24 contratos de exportação, totalizando cerca de 44 milhões de dólares.

A cimeira representa um passo importante na normalização das relações e na reconfiguração do ambiente asiático para a cooperação e paz, com um foco particular no “interesse comum pela paz na península coreana” e na “importância de retomar o diálogo com a Coreia do Norte“.

O mundo das Américas

Na América, a situação é complexa. Analistas e políticos, principalmente europeus, falam cautelosamente sobre o direito internacional sendo desrespeitado, enquanto, em geral, apoiam a agressão militar dos EUA contra a Venezuela. A atuação do presidente francês Macron, que primeiro condena e depois elogia as ações dos EUA, é um exemplo da confusão e hipocrisia que reina nesta questão. A preocupação do chanceler alemão Merz em encontrar uma justificativa legal para a situação somente reforça essa percepção de incoerência.

A verdade é que, ao longo da história, os EUA nunca respeitaram o direito internacional e, sob a administração de Trump, essa tendência se intensificou. Agem com a força, baseando-se em seus próprios interesses.

A invasão da Venezuela e a tentativa de captura de Maduro e sua esposa marcam um ponto de não retorno nas relações internacionais, especialmente no que diz respeito à soberania política dos países. O conceito de soberania está se esvaindo, tornando a estrutura “baseada em regras” da ordem internacional altamente incerta.

Essa realidade vai além da doutrina Monroe; alguns a chamam de “Donroe” (o D revela de onde vem), que parece mais pertinente. A sigla Donroe reflete uma combinação de métodos do Velho Oeste americano com técnicas mafiosas. O objetivo central parece ser o controle das vastas reservas de petróleo da Venezuela em favor de grandes conglomerados petrolíferos dos EUA. Contudo, com a situação deteriorada, as condições de investimento exigem valores exorbitantes, que podem levar a retornos a longo prazo incompatíveis com o apetite das grandes corporações, colocando em risco seus interesses.

Essa situação ainda vai render muito debate.

O que mais se espera é um filme no futuro, retratando a desesperança que permeia a abordagem subserviente ao apoio das ações trumpistas na Venezuela, com promessas de não parar por ali, nem na América Latina, nem no contexto do Hemisfério Ocidental. Entre os políticos da União Europeia, o governo português se destacou por sua submissão, exceto pelo primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, o único capaz de dizer “não” aos EUA.

Como diz o ditado, “a missa ainda vai no adro”. Imaginemos Trump tentando se apropriar da Groenlândia. Será que ele também planeja sequestrar a primeira-ministra da Dinamarca? Duvido que chegue a tanto, mas é claro que a Groenlândia poderá cair sob influência de Trump. Ele parece obcecado pelas riquezas minerais da região, enquanto a China, com certeza, não cederá suas tecnologias nesse contexto turbulento. Sem controle tecnológico, sua empreitada será inútil.

Entretanto, o sinal está dado. Barcos russos e chineses já estão sendo monitorados por Trump nas águas da Groenlândia!

Quem solicitará proteção ao reino da Dinamarca? A Trump, como principal país da OTAN, para que não demore a capturar a ilha? A União Europeia, para quê? O que se desenha é um enredo surreal… Resta-nos aguardar.

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