Talvez você já tenha passado por algo semelhante. Em conversas do dia a dia (como durante o almoço, por exemplo), o assunto frequentemente desvia para as longas horas que passamos trabalhando. Fala-se sobre sair tarde do escritório e a falta de tempo para coisas importantes. Muitas vezes, a conversa se volta para a comparação com os países do norte da Europa: lá, as pessoas saem mais cedo, almoçam rapidamente e a qualidade de vida é, sem dúvida, superior.
Embora nunca tenha vivido fora, possuo, como muitos, experiências indiretas que corroboram essa visão geral. Decidi, no entanto, verificar as estatísticas desta vez.
O Eurostat compila dados sobre as horas efetivamente trabalhadas nos países da União Europeia desde 2008. Vamos considerar o ano mais recente disponível, 2024, que confirma significativamente nossas conversas durante o almoço. A média de horas trabalhadas na UE nesse ano foi de 36 horas, enquanto em Portugal esse número é de 37,5 horas. Esses dados se comparam, por exemplo, com as 32,1 horas dos Países Baixos, 33,7 horas da Noruega ou 33,9 horas da Dinamarca, todos bem abaixo dos números portugueses.
Examinando os dados para Portugal desde 2008, notamos um pico em 2014 e 2015, ambos com 39 horas. Desde então, a tendência tem sido de queda. Na verdade, o valor de 2024 é o mais baixo registrado na série. Além disso, essa tendência de diminuição também é observada na UE como um todo.
Essas são excelentes notícias. Não tenho dúvidas de que devemos trabalhar de forma mais eficiente, não mais horas. Há muitas áreas em que estamos deixando a desejar: família, cultura, arte e esporte são algumas das mais evidentes. Observa-se um desgaste excessivo em muitos de nossos compatriotas. Precisamos de um equilíbrio melhor, com dedicação ao trabalho sem prejudicar outras facetas da vida.
A inteligência artificial, especialmente a IA generativa (que fundamenta ferramentas como ChatGPT e Gemini), já está nos ajudando a economizar tempo. Vários estudos têm tentado mensurar esse impacto. Um dos mais interessantes sobre os países europeus aborda a Dinamarca (Large Language Models, Small Labor Market Effects, Anders Humlum e Emilie Vestergaard, abril de 2025), com a participação de cerca de 25.000 trabalhadores de diferentes setores. A conclusão foi uma economia de 2,8% do tempo. É verdade que ainda é um valor pequeno, mas as recentes evoluções tecnológicas e o aumento na adoção dessas ferramentas sugerem que esse percentual pode crescer.
Portanto, desafio todos a aproveitarmos esse tempo extra de forma construtiva, ou seja, saindo mais cedo do trabalho (presumindo, é claro, que muitas vezes saímos muito tarde). Podemos aproveitar esse tempo para simplesmente estar presentes, estar com os nossos. Ou ainda para passear, ler, praticar esportes, encontrar amigos, levar o cachorro para passear, respirar – com tranquilidade e não como um alívio.
