«A Europa não precisa de metas impressionantes, precisa de metas que resultem.»
Não tenho dúvidas de que um dos maiores desafios da nossa geração é garantir que as próximas gerações encontrem um planeta habitável. No entanto, acreditar nesse objetivo não significa aceitar metas mal elaboradas ou caminhos técnicos frágeis e inverossímeis. Como escrevi recentemente, «o compromisso ambiental é inegociável, mas a estratégia para concretizá-lo não pode ignorar a realidade». A decisão atrásra anunciada pela Comissão Europeia confirma exatamente isso.
O recuo de Bruxelas na proibição total dos motores de combustão a partir de 2035 — substituindo-a por uma redução de 90% em relação aos níveis de 2021 — representa uma mudança significativa na política climática europeia. Contudo, será difícil que este seja o capítulo final. «Os 90% dificilmente serão exequíveis da forma como estão formulados», pois incluem mecanismos de compensação que diluem a severidade da meta. É claro que esta é uma etapa intermédia, uma antecâmara de nova flexibilização.
A pressão política e industrial tornou este desfecho inevitável. Alemanha, Itália e grande parte do setor automóvel já alertavam sobre o descompasso entre a ambição regulatória e a viabilidade econômica. O abrandamento na demanda por veículos elétricos, o cancelamento de modelos por diversos fabricantes e as perdas financeiras significativas de alguns dos principais construtores reforçaram a urgência de uma revisão da estratégia.
Ademais, há um contexto internacional que não pode ser ignorado. A China é responsável por mais de 30% das emissões globais, os EUA por mais de 11% e a Índia por quase 8%. A União Europeia, com pouco mais de 6%, tem insistido em uma liderança solitária e normativa rígida. O resultado estava à vista: «nenhuma política sobreviverá se colidir frontalmente com a competitividade econômica do continente». O recuo anunciado, portanto, é a crônica de um desfecho antecipado — e é desejável que não a veamos também como o início do declínio da maior indústria europeia.
Nada disso implica renunciar ao papel central do veículo elétrico. A verdade é que ele provavelmente dominará a mobilidade do futuro. Contudo, a descarbonização não ocorre por decreto; acontece no parque atual, onde os veículos continuarão, por muitos anos, a ser predominantemente a combustão. «Calendários legislativos não reduzem emissões; tecnologia aplicada ao parque circulante, sim.»
O caso português ilustra bem esse paradoxo. Apesar dos incentivos aos elétricos, continuamos a importar mais de 120 mil veículos usados anualmente, em sua maioria a combustão e com uma idade média de cerca de oito anos. O resultado é claro: «o parque envelhece, as emissões aumentam e o objetivo ambiental se distancia». A intenção é correta; no entanto, o efeito é o oposto do desejado.
A transição energética exige ambição, mas também é necessário não confundir o ritmo político com o ritmo tecnológico. «Sem uma indústria forte, não há transição possível; sem a adesão efetiva e consolidada dos consumidores, não há mudança sustentável». A revisão das metas europeias não significa abdicar da luta climática; significa reconhecer que a eficácia requer pragmatismo, diversidade tecnológica e sustentabilidade econômica.
Portanto, acredito que o anúncio de Bruxelas não é um ponto final. É apenas o começo da revisão de uma estratégia que precisa, urgentemente, voltar ao terreno. A Europa não precisa de metas perfeitas no papel — precisa de metas que funcionem no mundo real.
