Coimbra aprova hoje criação de habitação acessível nas margens do rio Mondego

Coimbra aprova hoje criação de habitação acessível nas margens do rio Mondego


A Câmara Municipal de Coimbra está a votar hoje sobre algo que há alguns meses teria soado a pura loucura: o município deseja suspender parcial e temporariamente o seu PDM (plano de desenvolvimento local) para permitir o desenvolvimento de ‘habitação acessível’ nas margens do rio Mondego – o mesmo rio Mondego que transbordou de forma espetacular este inverno, rompendo diques, destruindo um trecho de autoestrada… e inundando inúmeras casas e negócios.

A prefeita Ana Abrunhosa afirma ao Expresso: “Temos que tornar o coração da cidade e a habitação acessível para as classes médias (…) Não podemos deixar (Coimbra) apenas para quem tem dinheiro…”.

Esta é a mesma prefeita que em fevereiro estava preparada para evacuar 9.000 pessoas devido a uma iminente inundação de 100 anos.

Como já mencionamos, há alguns meses, essa proposta soaria como uma loucura. Mas hoje, Ana Abrunhosa sustenta que as áreas que tem em mente são aquelas que apresentam ‘risco mínimo de inundação’ – e que foram aprovadas (para desenvolvimento) pela agência ambiental APA, pela Proteção Civil e pela CCDR (comissão de desenvolvimento e coordenação regional).

Em outras palavras, a ideia pode não ser tão insana quanto parece à primeira vista.

O foco em Coimbra não se limita à promoção de habitação acessível. A cidade também visa “grandes investimentos em mobilidade”.

Segundo o Expresso, existem duas áreas nas margens do rio Mondego onde a câmara propõe “aumentar a construção atualmente permitida em até 30%”, desde que o aumento seja “destinado a habitação social, habitação com controle de custos e/ou alojamento acessível para alugar”, deixando 70% para o mercado aberto.

“As áreas em questão estão entre a Ponte de Santa Clara e do Açude,” continua o Expresso, “em um raio de cerca de 350 metros ao longo do percurso do corredor do Metrobus.”

O movimento ‘Cidadãos de Coimbra’ apoia a ideia, destacando a necessidade de “permitir uma maior densificação em áreas bem servidas por mobilidade e perto da cidade”. Jorge Gouveia Monteiro, do movimento, acredita que riscos de inundação podem ser mitigados por dragagem e renaturalização das margens do rio. Ele diz ao Expresso que ‘a ameaça de inundação não pode ser vista como um bloqueio ao desenvolvimento urbano.

Mas especialistas, não surpreendentemente, não veem as coisas da mesma forma. O geólogo Pedro Proença Cunha, da Universidade de Coimbra, teme que os dados de mapeamento de inundação possam “subestimar o risco real” e as áreas que poderiam ser afetadas. Ele também observa que “a ocupação progressiva das planícies de inundação nas últimas décadas alimentou uma falsa percepção de segurança, indo contra as dinâmicas naturais do rio”.

Ele não está sozinho. António Bento Gonçalves, também geógrafo, fez os mesmos pontos logo após as devastadoras inundações deste inverno, enfatizando: “Não podemos continuar a dar autorização às pessoas para se estabelecerem, sejam indivíduos ou empresas, instalarem-se com empresas, armazéns, fábricas, casas, nas planícies de inundação – porque não importa o quanto se faça, não importa quantos trabalhos sejam realizados, (inundações) sempre acontecerão.”

Pedro Bingre, da Liga para a Proteção da Natureza, se aventurou em território de “devem estar loucos”, sugerindo que “deve-se questionar o sentido de aumentar a construção e o número de pessoas vivendo em áreas de risco de inundação”.

Mas, por enquanto, parece que a câmara municipal de Coimbra terá o seu caminho.

Fonte: Expresso

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