Portugal não está entre os países diretamente afetados por Trump, mas os efeitos indiretos, como os impactos nas cadeias de valor, nas exportações e na previsibilidade para as empresas, causam apreensão entre os empresários nacionais. Apesar dos riscos associados ao uso de instrumentos de retaliação, as associações empresariais defendem que a Europa não deve deixar de responder.
O presidente dos EUA, Donald Trump, participou de uma reunião bilateral com o presidente da Finlândia, Alexander Stubb (não presente), no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, D.C., em 9 de outubro de 2025.
Completou-se esta semana um ano desde que Trump reassumiu a presidência nos EUA, e a tempestade comercial iniciada pelo 47º presidente ganhou um novo capítulo com a ameaça de sanções tarifárias aos parceiros europeus, em decorrência da oposição à tentativa americana de controlar a Groenlândia. Embora Portugal não esteja na lista de países alvos, as tarifas já impuseram limitações diretas, aumentando a preocupação em relação à imprevisibilidade gerada por essas novas ameaças.
A recusa de oito países europeus em apoiar o plano dos EUA para assumir o controle da Groenlândia, um território dinamarquês, levou Trump a sugerir sanções contra esses aliados: Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Países Baixos, Finlândia, Reino Unido e Noruega.
Embora Trump tenha recuado após anunciar que havia definido “o quadro para um futuro acordo relativo à Groenlândia” com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, ele não apresentou detalhes. Contudo, a ameaça persiste. Se concretizada, as exportações para os EUA enfrentariam barreiras de 10% a 25% na entrada, o que levou a União Europeia a considerar a utilização do Instrumento Anticoerção (ACI) e a suspender o acordo comercial com Washington.
“Embora Portugal não esteja na lista de países diretamente visados por essas tarifas adicionais, enquanto membro da União Europeia qualquer medida de retaliação terá inevitavelmente reflexos no nosso país”, afirma, referindo-se aos efeitos indiretos sobre cadeias de valor, exportações e confiança dos empresários.
“Para os empresários, lidar com essas barreiras não tem sido fácil, especialmente devido ao perfil do mercado norte-americano”, explica. “As estratégias empregadas vão desde a diversificação de mercados até investimentos locais”, acrescenta.
Um dos principais efeitos é a perda de previsibilidade. O protecionismo de Trump agrava a incerteza, levando a uma maior cautela entre os agentes econômicos, o que afeta a confiança empresarial e, consequentemente, adia decisões de investimento.
Após o anúncio, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, assegurou que a economia nacional está em uma posição “mais confortável” do que a maior parte da UE para enfrentar esse choque, mas enfatizou que o bloco precisa dar uma resposta “unida e forte”, pois o respeito pela soberania é uma linha vermelha que não pode ser cruzada.
Para a CIP – Confederação Empresarial de Portugal, os principais problemas gerados por essa política estão relacionados à previsibilidade dos empresários. O presidente Armindo Monteiro lembrou que os pedidos são “feitos diariamente e correspondem a vendas futuras que, com esta instabilidade, podem não se concretizar”, especialmente em setores que competem por preço e onde a elasticidade é menor.
Do lado das micro, pequenas e médias empresas (PME), Jorge Pisco, presidente da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME), mencionou que os efeitos das tarifas são limitados, já que “é um segmento concentrado nas questões do dia a dia”, embora os impactos indiretos possam ser inevitáveis. Além disso, vive-se uma situação econômica nacional que impõe desafios em vários setores, especialmente no de restauração e agroalimentar, “com repercussões” para os empresários.
Diante das ameaças de Trump, Bruxelas já deixou claro que não abandonará a Dinamarca. A resposta que vem sendo discutida nas instituições europeias, envolvendo o uso do ACI, tem seus “riscos associados”. Por isso, a preferência do presidente da AEP é priorizar “sempre que possível” o diálogo e a negociação, uma prática que tem sido característica da UE, defende Luís Miguel Ribeiro.
No entanto, as novas ameaças norte-americanas representam uma escalada das tensões com a Europa, não apenas pelo fato de já existirem acordos em vigor, mas também por ameaçarem interesses e a própria soberania dos territórios europeus. Nesse contexto, a utilização do ACI pode ser vista como um mecanismo de defesa legítimo.
